O time que viria a ser o maior campeão do Brasil só poderia, mesmo, começar vencendo
Sylvio Lagrecca foi um importante nome dos primeiros tempos do futebol brasileiro. Natural de Piracicaba/SP, onde nasceu em 1895, ainda menino mudou-se para São Paulo/SP, e aqui deu não só seus primeiros passos como também seus primeiros chutes numa bola de futebol. Mas não se limitava apenas a jogar: Lagrecca amava tanto o esporte que dele foi tudo – atleta, técnico, dirigente e, acima de tudo, amante.
Ao que parece, este médio-direito não jogava lá grande coisa, mas compensava sua pouca técnica com um amor à camisa fora do comum. Durante toda a sua careira de jogador, defendeu apenas um clube – o São Bento da Capital/SP -, mas fez parte de vários combinados, da Seleção Paulista e da Seleção Brasileira. Aliás, coube a ele, com apenas 19 anos, organizar ao lado de Rubens Salles o primeiro jogo da história do nosso selecionado, em 21 de julho de 1914 (2 a 0 sobre o Exeter City, da Inglaterra).
Naquele mesmo ano, em 25 de setembro, protagonizou um dos episódios mais marcantes de todos os tempos da nossa Seleção: após vencerem a Argentina por 1 a 0, em Buenos Aires, e garantirem a conquista da Copa Roca, a primeira taça ganha pelo futebol brasileiro, nossos jogadores viram os adversários atearem fogo à bandeira brasileira. Desesperado, Lagrecca subiu, pegou o pano em chamas, jogou-o ao chão e, juntamente com Friedenreich, rolou sobre ele para que o símbolo nacional não fosse totalmente destruído. Guardou consigo aquele pedaço de pano parcialmente queimado durante toda a sua vida e, quando ela terminou, em 1967, o trapo acompanhou seu corpo à sepultura.
Uma bela história, sem dúvida, mas neste momento o amigo internauta certamente se pergunta: o que Sylvio Lagrecca tem a ver com a nossa história? A resposta é simples: coube a ele, então com somente 20 anos, ser o primeiro homem a apitar um jogo do nosso clube. Isso mesmo: além de todas as funções citadas acima, ele também foi árbitro de futebol – aliás, após encerrar sua carreira de atleta, chegou a fazer parte, durante um bom tempo, do quadro de apitadores da Federação Paulista de Futebol.
Pois bem: chegávamos próximos das 15h00 quando Sylvio Lagrecca apitou o começo da partida. Apesar de se tratarem de duas equipes italianas e de o jogo ser um amistoso, o que se viu em campo não foram jogadas muito amigáveis. Segundo um relato da época, feito pelo Fanfulla (o mesmo jornal que convocara os italianos a fundarem o Palestra Itália meses antes), o duelo foi conturbado, tendo inclusive o que eles chamaram à época de “sururu” – na verdade, uma áspera discussão e um empurra-empurra entre os atletas.) No primeiro tempo, uma partida muito equilibrada, em que os ataques, muito embora com muito mais integrantes do que as defesas (5 contra 2), não conseguiram a elas se sobreporem.
Veio a etapa seguinte e o fato de contar com jogadores de melhor nível técnico – aqueles cinco emprestados pelo Corinthians – nos favoreceu. Atacando cada vez mais e com maior ímpeto, nossa equipe chegou ao primeiro gol, marcado por Bianco através de uma cobrança de pênalti. Pouco depois, e também por meio de uma penalidade máxima, foi a vez de o centroavante Alegretti fazer o segundo.
Quiseram os deuses do futebol, já naquela época presentes, que fossem vencedores da peleja os italianos do Palestra e não os italianos do Savoia, fato que levou à loucura todos os integrantes da comitiva paulistana.
Um homem, porém, fugia à regra: de fora, acompanhando a festa dentro do gramado – que teve direito até à entrega de uma taça -, estava Luigi Cervo, o fundador que mais lutou e mais defendeu a ideia de que uma partida de futebol seria a solução para que o clube não morresse apenas poucos meses depois de ter nascido. Olhos lacrimejantes, sabor de vitória a adoçar a boca e de dever cumprido a encher o peito, ele sabia que, dali em diante, seria impossível acabar com o Palestra Itália. Dali em diante, o Palestra Itália pensaria grande, e o próximo passo seria disputar o Campeonato Paulista.
Mas até que isso fosse possível, muita luta ainda teriam de enfrentar aqueles italianos e seus descendentes, como você irá conferir a partir do próximo capítulo de “Nossa História”.
Três detalhes interessantes:
a) Em agradecimento pelo fato de ter apitado o jogo graciosamente, o Palestra Itália convidou Lagrecca a defender o time no segundo jogo de sua história (1 x 4 Paulistano, em 29 de junho daquele ano).
b) O Savoia ainda existe. A partir de 1942, pela mesma razão do Palestra, teve de mudar de nome e passou a se chamar Votorantim. Entre 1948 e 1952, disputou a Segunda Divisão paulista mas, hoje, limita-se apenas à prática do futebol amador.
c) Além daquele jogo, aconteceram outras três partidas entre Savoia/Votorantim e Palestra Itália/Palmeiras: em 1920 (5 a 1 para nós), em 1925 (2 a 1 para eles) e em 1947 (empate por 3 a 3).
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18/03/2025 at 18:35
Tinha que ser com a raça do Palestra a primeira vitória, podia servir de lição para os dias de hoje, pois estão precisando.
Abraço.
18/03/2025 at 10:35
Bom dia.
Emocionante acompanhar a primeira partida oficial. E por incrível que pareça, o primeiro gol foi marcado pelo corintiano emprestado. A história dos dois clubes estão entrelaçadas mesmo, não tem jeito.
Saudações Alviverdes e rumo ao Tetra.
18/04/2015 at 18:09
Parabens Marcio por mais esta historia brilhante sobre o nosso eterno PALESTRA…Valeu.
19/04/2015 at 23:03
Muito obrigado, Birochi.
E como eu já disse… Vêm mais emoções por aí.
Abs.